• Pedro Boscov

Lições da Tailândia


Tudo começou mais ou menos em 2013 ou 2014, não lembro exatamente quando. Um belo dia me deu um negócio e me dei conta: “Putz, já viajei um monte mas não conheço nada da Ásia!!!”.

Na infância era fanático por Jaspion e Jyraia, mas também curtia Changeman e umas duas ou três outras séries que a finada TV Manchete trazia a rodo da terra do sol nascente. Mal acabava a escola e a gente já corria pra casa pra ver aquele monte de heróis de olhos puxados soltando raios, batalhando monstros gigantes de borracha na maquete de papelão e gritando “Maldito!” ou “Vou acabar com você fulano!” (na verdade nunca entendi o motivo de tanta raiva, deixa logo o monstrengo destruir Tóquio que a galera cola uns papeizinhos e reconstrói de olhos fechados poxa).

Além disso, modéstia à parte, sempre fui alto entendedor de histórias de samurais. Li Musashi de uma tacada só, em dois curtos períodos sem aulas na época de faculdade, e Shogun do James Clavell ainda figura como um dos meus livros favoritos! Admito: sou fissurado nessas coisas de honra e encontrar o próprio caminho através de batalhas e auto-sacrifício e no clichezão do ocidental sem rumo achando sua razão de viver no oriente, então no meu caso foi juntar a fome com a vontade de comer.

Mas, por algum motivo, decidi que meu primeiro destino não seria o Japão...escolhi a Indonésia. Não consigo colocar meu dedo no porquê exatamente, porém alguma coisa nas praias e na “mística” do nome atraíram minha atenção,. Só sei que decidi que era para lá que queria ir. Ok, destino traçado, era hora de procurar passagens aéreas.

Nessa mesma época, olhando notícias sobre o país, começaram a sair várias reportagens sobre dois brasileiros condenados à morte por tráfico de drogas justamente lá. Obviamente que na minha mala só teria várias bermudas, sungas e regatas, além de bonés e um belo par de óculos de sol. Mesmo assim fiquei com aquilo na cabeça. “Que pena”, pensei, mas minha primeira experiência na Ásia tinha que ser fenomenal, então acabei desistindo. Não queria ficar olhando por cima do ombro de 5 em 5 minutos pra ver se algum maluco ia colocar algo suspeito na minha mochila. “Fica pra próxima”.

Como o destino sempre nos prega peças, e pensamentos bons e fortes sempre viram realidade, alguns dias depois comecei a pesquisar lugares próximos. Por pura sorte dei de cara com uma mega promoção da Emirates para a Tailândia. Coisa de uns mil reais a menos que o usual. Empolgação batendo, fechei na hora e, vários meses depois, embarquei no dia marcado sem maiores sustos.

Depois de uma semana em Bangkok visitando templos, andando de barco e experimentando um monte de comidas deliciosas, parti para as praias do Sul. Pra quem não sabe, o sul da Tailândia é conhecido pelas belíssimas praias distribuídas por infinitas ilhas, algumas bem longe da costa, mas quase sempre acessíveis por barcos de todos os tamanhos.

Econômico que sou, escolhi o vôo mais barato de Bangkok até Phuket, pois não quis pagar uns U$20,00 a mais para descer no aeroporto de Krabi que fica mais ao sul.

Só que o tonto aqui não se atentou que, por ter escolhido ficar em Ao Nang, vila que está muito mais próxima de Krabi, teria que dar um jeito de andar quase 200km de Phuket até a hospedagem. Pois é amigos, esses U$S 20,00 economizados logo evaporaram pois não havia mais barcos fazendo a travessia por mar (todos lotados) e um taxi acabou saindo quase U$S70,00 pra me levar do aeroporto até meu destino. Sou espertão demais, fala a verdade!

Aí você me pergunta: “Blz Pedro, mas o que isso tem a ver com minha obra ou projeto?”. Muito simples.

Quem nunca ouviu aquela velha história de vendedor de home center “Leva essa aqui mesmo, não é tão conhecida mas é tão boa quanto a marca “X”? Ou o próprio proprietário do imóvel que chega e solta sem pudor um “ah, esse piso ainda está bom, deixa ele aí” ou “pra que mexer na hidráulica, vamos só trocar uns azulejos que o banheiro fica novo!“.

Pois é caro leitor, é a velha e famosa economia “porca”, o pão-durismo de quem tem o recurso, mas fica naquela de contar migalhas pra não gastar um “a mais” não é? Isso funciona? Claro que funciona! Mas a grande sacada é que funciona só por um tempo. No fim você sempre acaba gastando mais.

É óbvio que a torneira da marca desconhecida tem vazão de água, mas depois de um tempo a rosca vai soltar, a borracha não vai vedar, e aqueles R$100,00 que você “economizou” vão rapidinho virar R$ 300,00 ou mais na mão do encanador. Aquele piso que você não trocou pra economizar R$700,00 de material vai ficar horroroso quando colocar os móveis e tapetes novos e aí você vai pensar “e agora, será que além de trocar o piso vou ter que gastar mais dinheiro com transportadora para tirar e colocar novamente tudo no lugar?”. Fora as dores de cabeça de ter uma casa nova e que não funciona direito. Entenderam onde quero chegar?

Moral da história: não faça como o Pedro viajante! Busque o máximo possível de informações, escolha um aeroporto que seja próximo da sua hospedagem e evite “atalhos” por medo de gastar muito com sua obra.

Lembre-se: bom senso vem antes de economia (inclusive no dicionário).


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