• Pedro Boscov

California Dreaming


Meu pai é arquiteto e teve três filhos. Como todo cidadão maravilhosamente criativo e fora do padrão, ele resolveu começar a produzir descendentes somente a partir dos 48 anos!!! Podemos tirar várias conclusões dessa escolha, mas a principal é que pais jovens com certeza terão mais tempo nesse plano com suas crias do que os “atrasadinhos”. É uma das leis fundamentais da natureza - um dia não estaremos mais aqui - portanto temos que simplesmente aceitar e viver de acordo fazendo nosso melhor.

Dito isso, como o “maestro” (carinhoso apelido que dei ao figura) está firme e forte aos oitenta e vários - e pelo jeito ainda vai muito longe, então chega pra lá Niemeyer!!! - minha mãe teve a brilhante idéia de fazer uma viagem internacional com cada filho mais eles dois. Como não sou bobo nem nada, declarei prontamente meu aceite e já falei na lata: “Quero conhecer a California”.

Ah, e como acertei na minha escolha! Se você nunca se interessou pela “Califa” - ou acha que tudo lá se resume a Los Angeles, Hollywood, San Diego ou San Francisco - sugiro fortemente jogar no Google nomes como Santa Barbara, Pacific Road, Big Sur, San Simeon ou Salsalito. Garanto que sua boca vai salivar de vontade!

Um dos grandes baratos de viajar como Arquiteto é prestar atenção não somente nas paisagens ou atrações turísticas, mas na própria configuração da cidade - nos meios de transporte, nas casas e edifícios comerciais, nos prédios históricos - ou seja, em tudo que constitui aquele local e em como todo esse conjunto interage entre si. É muito gozado ver uma cidade toda ortogonal e dirigir quilômetros por ruas e estradas retas (zzzz), principalmente para quem está acostumado a curvas, reviravoltas e becos malucos das cidades brasileiras.

Outra coisa que me chamou a atenção foi o clima seco. Nosso clima, em contraste ao deles, é muito quente e úmido. Por isso os portugueses - que só são bobos na piada - tomaram providências na hora de adaptar seu estilo de construir quando chegaram ao Brasil. Varandas, telhas cerâmicas, elementos vazados, pátios, grandes aberturas, paredes isolantes, venezianas, são vários os elementos arquitetônicos “importados” de Portugal e que até hoje são usados em nosso cotidiano na hora de construir.

Na Califórnia, ao contrário, o clima seco e ameno tem muita variação térmica durante o dia. E quase não chove em algumas regiões, principalmente em Los Angeles! Só isso explica uma casa como a Stahl House, um projeto extremamente arrojado e construído no final da década de 1950 com um telhado completamente PLANO!!!

Sim meus amigos, não há inclinação no telhado dessa casa da foto aí de cima. Mas e quando chove e a água acumula? Lá não é deserto, então deve chover certo? Sinceramente, não consegui encontrar explicação para essa pergunta (balde e rodo talvez?).

Mas o caso aqui é que há muitas casas de madeira por lá. Vários fatores podem explicar isso: custo, disponibilidade, familiaridade com o processo construtivo e o próprio clima que permite um tratamento mais simples nas peças mais frágeis. O fato é que, tanto lá como aqui, ainda persistem alguns equívocos gritantes na hora de construir.

Um exemplo clássico de lá: telhados com inclinações absurdas! Telhados assim são indicados para muita neve, então a única explicação é o gosto mesmo - ou seja, estamos falando de algo 100% estético. Ah, e antes que alguém saia me corrigindo, não estou falando de lugares da California onde neve é recorrente como Lake Tahoe ou Mamoth Lakes...estou falando do centro de LA mesmo, onde neve de verdade não cai há um bom tempo (se é que algum dia caiu)!

A mesma coisa eu vejo aqui: telhados muito inclinados num clima tropical, construções com muito ou pouco vidro e orientação solar completamente equivocada, além de pisos lisos e brilhantes numa região onde chove e faz tem muito sol - você ofusca a visão e faz a pessoa escorregar, olha que legal! – e por aí vai.

Meu ponto aqui é o seguinte: não é preciso reinventar a roda. Se uma solução está aí há centenas de anos, mas AINDA funciona bem nos dias de hoje, então vamos usá-la sem medo na sua reforma ou construção. A criatividade e originalidade irão surgir pelo uso dessas soluções - não pela solução em si - e com certeza dessa maneira tudo será configurado naturalmente de acordo com cada desafio apresentado.

Ah, antes que esqueça: pense nisso também antes de copiar um “estilo” feito para outra região do país. Casas em Porto Alegre e Manaus são extremamente diferentes por uma boa razão.

Boa obra!


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